Como crateras escavadas na noite densa para os restos de sua alma vazia, assim eram os olhos de Zulmira. Não via nos becos sórdidos a decadência das gentes, mas uma potencialidade para o inesperado e o fatídico.
Ela zombava do tempo e do ser. Nas tempestades da carne e no redemoinho da embriaguez delirante encapsulava antídotos e panacéias para os breves dias de amarga lucidez.
Em outros palcos, novos atores, velhos canastrões, máscaras partidas no relance nos braços e abraços enclausurados na inconsistência da troca. Nada de afetos afoitos ou sinceras desculpas.
Gente se parte ao meio - dizia - como quem rasga uma antiga fotografia para segregar memórias. Zulmira, a dama da noite, rompia a escuridão tateando na atmosfera onírica do seu próprio destino encrostado nas pedras das ruas.
Zulmira, por trás da fumaça, imprimia no ar, um sorriso ácido como o blues que brilhava na superfície negra do vinil.
Sérgio Araújo
Wanderley Elian