sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Arte de Amar


Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma,
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação,
Não noutra alma.
Só em Deus ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira

Wel




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Rotina


O bar é o mesmo.
O garçom é o mesmo.
A bebida, nem preciso pedir, é a mesma.
O dia ? Todos os sábados.
A companhia ? Ninguém.
Êta merda de vida !

Wanderley E. Lima




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Medo



Provisóriamente não cantaremos o amor, que se refugiou no mais baixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços.
Não cataremos o ódio, porque esse não existe.
Existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das Igrejas.
Cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas, cantaremos o medo da morte e o medo do depois da morte, depois morreremos de medo.
E sobre o nosso túmulo nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade
Wel

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Subversão


Benditos sejam os que nadam contra a corrente.
Benditos sejam os que não se submetem às imposições da cultura dominante.
Benditos sejam os que, sem medirem conseqüências,
sem se importarem com os riscos de serem arrastados ao ridículo
e ao escárnio da opinião pública,
subvertem os valores estabelecidos.
São esses, que despertam
e fazem com que os homens
dêem um passo à frente no caminho da consciência de si mesmo.


Plínio Marcos

Wel

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Desilusão


E uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substsiruirei o destino pela probabilidade.

Clarice Lispector . A Paixão Segundo G.H.

Wel

Alegria


Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.


Clarice Lispector

Wel



v

domingo, 1 de fevereiro de 2009

As razões do amor


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade


Wel
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