sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Fim do amor



Quando ele ligou e disse que precisávamos conversar, pela voz percebi que as coisas não estavam boas. O próprio lugar escolhido , já dava para sentir que aquela seria a última conversa: Um bar tranquilo, numa rua tranquila, numa mesa nos fundos.
Quando cheguei, ele já estava, fumando e com um ar pensativo. Assentei-me, pedi ao garçom um copo, ascendi um cigarro. A princípio um silêncio fúnebre tomou conta do ambiente. Como foi ele que propôs o encontro, esperei que falasse.
É incrível, como todas as pessoas que vão dispensar alguém, sempre dizem as mesmas coisas: Olha, gosto muito de você, você é muito legal, mas gostaria de dar um tempo, estou meio confuso. Ali também não foi diferente. Mesmo já prevendo o que aconteceria, não consegui controlar meu coração, pelo menos ali, não chorei.
Se gosta muito de mim, se sou  muito legal, por que não fica comigo? Pensei. Quis perguntar os reais motivos, mas já estava sofrendo muito, para prolongar aquele papo, quase um monólogo.
Pedi licença, deixei sobre a mesa, minha parte na contar, e saí carregando minha dor e minhas dúvidas.
Aos poucos fui reorganizando minha vida sem sua presença. Já conseguia não pensar mais nele, joguei algumas coisas fora e abri meu coração para a possibilidade de um novo amor.
Seis meses depois ele me liga e propõe uma reconciliação. Por um momento vacilei, mas tive coragem de dizer:
- Gosto muito de você, você é muito legal, mas não   temos mais tempo para nós. Seja feliz.
Desliguei o telefone.

Wanderley Elian

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Madalena II





do natal disseram-me
: “damascos...
...e anestésico
quando dos pregos nas chagas
do crucificado menino
mas, vale ouro/incenso/mirra
meu comércio-carnal de
ninar-vos com eternidades perecíveis?
talvez só depois que o zumbidor neon
das vitrinas com presépios
tatuar na pele de minhas retinas cruas
o lusco-fusco
de sua comovente hemorragia


Wilson Torres Nanini 




Wanderley Elian


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Desistência


Cansou de amar.
Cansou de ser amada.
Cansou de dias melhores.
Cansou da paz interior.
Cansou de ser feliz.
Cansou de viver de faz de conta.

Wanderley Eliana

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Poema Entredormindo ao Pé da Lareira


O ajo depenado tremia de frio
mas veio o Conde Drácula e emprestou-lhe sua capa negra.
Na litografia da parede
Helena a bela grega
Mantém sua pose olímpica... Desloca-se um tição:
Uma chama
Começa a lamber como um gato minha perna de pau.

Mário Quintana

Wanderley Elian

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Minerim galante



O Mineirim saiu lá de Santana da Vargem e veio para capital vender umas
cabeças de gado.
Chegando aqui, foi direto para um barzinho da moda. Sentou numa mesa
discreta no fundo e passou a observar calmamente as meninas que
chegavam.
Eis que, de repente, uma loira maravilhosa senta a cinco mesas de
distância.
Maravilhado, sem titubear escreveu um bilhete num pedaço de papel, pediu
uma garrafa do vinho mais caro da casa e pediu para o garçom entregar
para a loira junto com o bilhete.
A loira recebeu o bilhete com os seguintes dizeres:
Moça,
Sô homi bão, trabaiadô e queria levá ocê pra passeá cumigo.
Vô Ti dá muitos presente.
Sô da roça, mas tenhu bom gosto.
Aceita esta garrafa de vinho. É dos bão. O mió da casa.
A loira olhou para o Mineirim, e respondeu o bilhete:
Para sair com uma pessoa como você, só se você tivesse uma Ranger na
garagem, 500 cabeças de gado e pelo menos 25 cm dentro da calça.
O Mineirim recebeu o bilhete e respondeu, chateado:
Moça,
Possu até vendê minha Mitissubish L200 e minha Haylux e ficá só com a
Ranger.
Possu tamém até vendê baratim 14.500 boi dos 15.000 que eu tenho e só
ficá cum 500.
Mas mess tendo gostado muito di ocê, devolve minha garrafa de vinho pois
num corto 5 cm du meu pinto, nem fudeno!!!


Wanderley Elian



quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A bosta é pop!



Minha poesia não é pra ser recitada em
Saraus ou Academias de Letras.
É pra ser lida, sentida
No fundo do estômago
No útero, no saco escrotal.
Minha poesia vem das ruas
Avenidas encardidas
Lamacentas
Limo, excrementos
Vômitos esverdeados
De quem tem sede de vida.
Minha poesia não é de métrica
Nem rima rica
A pobreza define e alimenta os versos
Tão indigestos que
Dão azia, caganeira
Larica.
Minha poesia é kirsh
Sem cores de Almodóvar
Tudo em preto e branco
Cadelas e cachorros não enxergam colorido.
Minha poesia é pop.
A Bosta é pop!
Todo mundo faz e
Cada qual a sua maneira.
Mais dura ou mais mole
Depende do que se comeu na véspera.
Minha poesia pode ser diluída
Na cerveja, na cachaça
Na garapa vendida na feira e
Mais dois pastéis
bem grandes
que possam caber perplexidade
e espanto.
Minha poesia está sempre indignada
Aterrorizada
Por tanta genialidade óbvia
Que só vive de conceito
Na pia batismal
Sacramentando o egoísmo e a sordidez;
O olhar míngua ao dar nome
ao próprio umbigo.
Minha poesia está sempre de olhos arregalados
Sem dormir a canção de Drummond
Que Me fez acordar para sempre.
Só a criança em Mim dorme
Porque há mais de um século está morta.
Minha poesia é feita do lixo!
Faz desmoronar o planeta insustentável
Empobrecido pelo ser humano
E seu medo de amar.
Meu poema é o dejeto que não se recicla! 


Lou Albergaria

Retirado do blog:

Wanderley Elian

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

domingo, 12 de dezembro de 2010

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Triste regresso


Da calçada já dava pra ver que tudo estava mudado. A casa já não era mais branca, as plantas do pequeno jardim estavam retorcidas por falta d'água, e na parede da varanda a gaiola vazia.
O coração acelerava e pernas tremiam, com dificuldade abri o portão, e a passos lentos, caminhei até à porta. E se tivessem trocado a fechadura? Sem dificuldades consegui abri-la . Com as vistas embaçadas por uma lágrima que insistia em cair, entrei na sala.  Tudo estava exatamente como , quando fui embora. A velha cristaleira, na parede os retratos de uma família que não existe mais, e no conto, o velho rádio, em torno do qual nos reuníamos para ouvir notícias. Tudo coberto por uma camada de pó, que o tempo se encarregou de acumular. O silêncio era total. Apena um filete de luz entrava por uma fresta da janela. Caminhei até o quarto, e lá estava ela, sentada na cama com o olhar perdido. Sem se virar , disse: demorou filho, o jantar está no forno. Nesse momento vi o chão faltar sob os meus pés. Ela nem  notara que se passaram 20 anos. Sem saber o que fazer, sentei-me ao seu lado, segurei suas mãos, e tive a certeza que não teríamos tempo de resgatar  nossas vidas. Nesse dia chorei, todas as lágrimas que tinha para chorar.

Wanderley Elian

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O Cravo não brigou com a Rosa


Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais “O cravo brigou com a rosa”. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo – o homem – e a rosa – a mulher – estimula a violência entre os casais.
Na nova letra “o cravo encontrou a rosa/ debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada”. Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que “O cravo brigou com a rosa” faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?
É Villa Lobos!!!!!!
Outra música infantil que mudou de letra foi “Samba Lelê”. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte:
Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: “Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.” Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca.
Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: “Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz”. Comunico também que não se pode mais “atirar o pau no gato”, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem “entra na roda dança”, nos dias atuais, não pode mais ter “sete namorados para se casar com um”. Sete namorados é coisa de menina fácil.
Ninguém mais é “pobre ou rico de marré-de-si”, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens. Dia desses alguém [não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, “Pai Google da Aruanda”] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado.
Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.
Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.
Daqui a pouco só chamaremos o anão – o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil – de “deficiente vertical”. O crioulo – vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de “afrodescendente”. O branquelo – o famoso branco azedo ou Omo total – é um “cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente”.
A mulher feia – aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno – é apenas a “dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade”. (Que o diga o deputado…) O gordo – outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão – é o “cidadão que está fora do peso ideal”.
O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha. Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha “necessidades especiais”… Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.
O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra………… e o centroavante pereba tomar ……………, cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.
(...)
Luiz Antonio Simas

Wanderley Elian







segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Se o ano não for bissexto



Manhã. 

A caminho do autocarro 
Faz frio. 
Um cálice. 
A calma desfaz-se 
(Se é que existiu). 
Olhos fixam-se na estrada. 
Matar o bicho: o café,o pastel de nata, o cigarro etc... 
À noite o regresso sem história 
Como a uma fortaleza arruinada, 
Carismáticamente 
(A multiplicar por 365).

Serra

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Utopia


Enfrentei o mundo envolto na demanda 
Da utopia, dum lugar profano/religioso 
Onde se experimenta a arte, a sobrevivência e a mestria
Rompi a sujeição à subsistência 
E tragicamente me perdi na vastidão dos sonhos 
Das relações cortadas por falta de meios 
À pura mendicidade solitária 
Retrocedi, lento e miserável
Até a outros lugares onde me desembaracei 
Do desespero, 
Morrendo e renascendo no crepúsculo.

Zarelleci

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Eu mesmo...


Eu não sei escrever,
apenas rabisco palavras
soltas
que expressam parte
do que sou,
porque o que sou
na totalidade
guardo para
mim.

Wanderley Elian
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